{"id":1810,"date":"2024-06-27T13:10:21","date_gmt":"2024-06-27T16:10:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sindticccba.org.br\/?p=1810"},"modified":"2024-06-27T13:10:21","modified_gmt":"2024-06-27T16:10:21","slug":"especialistas-explicam-tentativa-de-golpe-na-bolivia-um-ano-antes-das-eleicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sindticccba.org.br\/index.php\/2024\/06\/27\/especialistas-explicam-tentativa-de-golpe-na-bolivia-um-ano-antes-das-eleicoes\/","title":{"rendered":"Especialistas explicam tentativa de golpe na Bol\u00edvia, um ano antes das elei\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><strong>Embora isolada e mal planejada, a a\u00e7\u00e3o orquestrada pelo ex-comandante do Ex\u00e9rcito Juan Jos\u00e9 Z\u00fa\u00f1iga exp\u00f5e \u201cfraturas de poder\u201d com a chegada de Evo Morales em 2006. Sua pol\u00edtica redistributiva de renda e nacionaliza\u00e7\u00e3o dos hidrocarbonetos trouxe muita insatisfa\u00e7\u00e3o \u00e0 elite.<\/strong><\/p>\n<p><a style=\"text-align: center;\" href=\"https:\/\/sindticccba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/la-paz.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-1811\" src=\"https:\/\/sindticccba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/la-paz-1024x643.webp\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"437\" srcset=\"https:\/\/sindticccba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/la-paz-1024x643.webp 1024w, https:\/\/sindticccba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/la-paz-300x189.webp 300w, https:\/\/sindticccba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/la-paz-768x483.webp 768w, https:\/\/sindticccba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/la-paz-696x437.webp 696w, https:\/\/sindticccba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/la-paz-1068x671.webp 1068w, https:\/\/sindticccba.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/la-paz.webp 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Movimentos sociais mostraram apoio ao governo de Luis Arce, alvo de tentativa de golpeS\u00e3o Paulo \u2013 A tentantiva de golpe militar na Bol\u00edvia do ex-comandante do Ex\u00e9rcito, Juan Jos\u00e9 Z\u00fa\u00f1iga, nesta quarta-feira (26) foi avaliada como uma iniciativa isolada, mal planejada, em um contexto de crise econ\u00f4mica e disputa pol\u00edtica. O militar havia sido demitido na ter\u00e7a-feira (25), depois de amea\u00e7ar o ex-presidente Evo Morales, que pretende concorrer novamente \u00e0s elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cO general teve um erro de c\u00e1lculo pol\u00edtico. Achou que receberia algum respaldo ao amea\u00e7ar o Evo Morales. Mas o atual presidente boliviano bancou a aposta e tirou o general do comando do Ex\u00e9rcito. E a\u00ed ele se viu numa situa\u00e7\u00e3o de isolamento e tentou o golpe de uma maneira muito improvisada, sem participa\u00e7\u00e3o de outras lideran\u00e7as das For\u00e7as Armadas. E foi importante ver que ele n\u00e3o teve apoio significativo de nenhum grupo social do pa\u00eds\u201d, disse o cientista pol\u00edtico e professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais Maur\u00edcio Santoro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).<\/p>\n<p>\u201cO Evo Morales j\u00e1 convocou uma greve geral e tem os movimentos sindicais muito alinhados com ele. O pr\u00f3prio presidente Luis Arce tamb\u00e9m veio a p\u00fablico para pedir que a sociedade boliviana se junte contra esse golpe. E setores da oposi\u00e7\u00e3o se colocaram contra o golpe. A pr\u00f3pria Jeanine A\u00f1ez, que j\u00e1 foi presidenta e opositora do Evo, disse que n\u00e3o aceita o que aconteceu. O Lu\u00eds Camacho, importante l\u00edder contra o Evo Morales em 2019 falou que n\u00e3o aceita tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, esse movimento de golpe parece isolado. Muito mais uma tentativa do Ex\u00e9rcito e do pr\u00f3prio Z\u00fa\u00f1iga de demonstrar poder, do que de fato querer impor um novo governo\u201d, disse Arthur Murta, professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC) de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Crise econ\u00f4mica e disputas pol\u00edticas<br \/>\nEm segundo lugar, o ato do general pode ser entendido a partir de problemas mais estruturais que o pa\u00eds enfrenta, como a dimens\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>\u201cA Bol\u00edvia est\u00e1 vivendo uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica muito dif\u00edcil. O principal setor \u00e9 o de g\u00e1s natural, que est\u00e1 enfrentando uma s\u00e9rie de problemas. Isso levou a uma queda nas exporta\u00e7\u00f5es, e as reservas internacionais da Bol\u00edvia est\u00e3o muito pequenas, em torno de US$ 3 bilh\u00f5es. O que \u00e9 nada para as necessidades de um pa\u00eds. Para comparar, o Brasil que tem uma situa\u00e7\u00e3o bastante confort\u00e1vel em termos de reservas tem hoje mais de US$ 350 bilh\u00f5es. Isso significa que a Bol\u00edvia est\u00e1 com muita dificuldade de importar mesmo produtos b\u00e1sicos para o dia a dia: alimentos, rem\u00e9dios, combust\u00edveis\u201d, disse Maur\u00edcio Santoro.<\/p>\n<p>\u201cOs pa\u00edses andinos est\u00e3o baseados no extrativismo pesado e com os pre\u00e7os nas alturas. O Estado quer se apropriar de uma parte desse excedente econ\u00f4mico. E grupos nacionais e multinacionais querem pegar absolutamente tudo. Mas n\u00e3o \u00e9 como Salvador Allende. Na d\u00e9cada de 70, que estava mantendo a companhia do cobre sob o controle, ou estatizando empresas. Agora \u00e9 o contr\u00e1rio, \u00e9 uma administra\u00e7\u00e3o que quer se apropriar de parte desses excedentes para a realiza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. A classe dominante e as multinacionais nem isso topam. Ent\u00e3o n\u00f3s ficamos sempre numa situa\u00e7\u00e3o limite entre o Estado e essas for\u00e7as sociais\u201d, disse o professor do Departamento de Economia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Nildo Ouriques.<\/p>\n<p>Do ponto de vista das disputas pol\u00edticas, as tens\u00f5es entre diferentes l\u00edderes e partidos do pa\u00eds contribuem para aumentar os riscos \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>\u201cO componente pol\u00edtico dessa crise \u00e9 o fato de que no ano que vem a Bol\u00edvia vai ter elei\u00e7\u00f5es presidenciais e o general que tentou o golpe hoje disse ontem que se o Evo Morales se apresentar como candidato \u00e0 presid\u00eancia, as For\u00e7as Armadas iriam intervir e prender o Evo. H\u00e1 poucos anos aconteceu uma crise pol\u00edtica semelhante na Bol\u00edvia, em 2019, que terminou com a deposi\u00e7\u00e3o do Evo e a interven\u00e7\u00e3o dos militares. Ent\u00e3o, \u00e9 uma ferida que ainda est\u00e1 aberta\u201d, disse Maur\u00edcio Santoro.<\/p>\n<p>\u201cSe voltarmos mais no tempo, a d\u00e9cada de 1990 \u00e9 relativamente est\u00e1vel na Bol\u00edvia. As tens\u00f5es come\u00e7am com a chegada ao poder do Evo Morales em 2006, que provoca fraturas de poder. Ele come\u00e7a a fazer pol\u00edtica redistributiva de renda, nacionalizar os hidrocarbonetos, entre outras quest\u00f5es, que geram insatisfa\u00e7\u00f5es com a elite. A Bol\u00edvia ela entra num cen\u00e1rio de piora dessa estabilidade democr\u00e1tica, porque o Evo desestabiliza um sistema anterior de poder, em que a popula\u00e7\u00e3o pobre ind\u00edgena estava sub-representada. Isso faz crescer o movimento reacion\u00e1rio, que se manifesta at\u00e9 hoje\u201d, disse Arthur Murta.<\/p>\n<p>Contexto regional e a tentativa de golpe na Bol\u00edvia<br \/>\nOs pesquisadores consideram tamb\u00e9m um contexto mais amplo na Am\u00e9rica do Sul, com avan\u00e7o de grupos e lideran\u00e7as de extrema-direita. Isso representa o crescimento de movimentos autorit\u00e1rios e antidemocr\u00e1ticos. Em alguns casos recentes, houve tentativas de golpe igualmente fracassadas.<\/p>\n<p>\u201cEssa tentativa de golpe faz parte de um contexto mais amplo de crise da democracia na Am\u00e9rica Latina. Esse ano a gente teve na Guatemala uma tentativa de impedir a posse de um presidente eleito. Manifestantes invadiram o Congresso no Brasil no ano passado em tentativa de golpe. Bom que a democracia est\u00e1 resistindo e mostrando ter anticorpos e ser mais resiliente. Mas \u00e9 preocupante que todas essas crises estejam ocorrendo na regi\u00e3o nos \u00faltimos anos\u201d, disse Maur\u00edcio Santoro.<\/p>\n<p>\u201cO que foi positivo hoje \u00e9 que a resposta internacional foi muito forte na defesa da democracia boliviana. Todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul se manifestaram em maior ou menor grau em defesa da democracia. Isso foi uma coisa importante. A Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos tamb\u00e9m respondeu de modo muito r\u00e1pido e contundente\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12px;\">(Fonte: Rede Brasil Atual, 27\/06\/2024. <\/span><span style=\"font-size: 12px;\"><em>Reda\u00e7\u00e3o: Cida de Oliveira, com informa\u00e7\u00f5es da Ag\u00eancia Brasil)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora isolada e mal planejada, a a\u00e7\u00e3o orquestrada pelo ex-comandante do Ex\u00e9rcito Juan Jos\u00e9 Z\u00fa\u00f1iga exp\u00f5e \u201cfraturas de poder\u201d com a chegada de Evo Morales em 2006. Sua pol\u00edtica redistributiva de renda e nacionaliza\u00e7\u00e3o dos hidrocarbonetos trouxe muita insatisfa\u00e7\u00e3o \u00e0 elite. 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